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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Esse final de semana

Esse final de semana a gente esteve em duas cidades: Sertãozinho e Rio Claro. Esse projeto "Viagem Teatral" é uma delícia sobre vários aspectos.  Temos mais tempo de conviver e passamos o dia inteiro falando merda e dando risadas; também conseguimos pensar melhor algumas estratégias para o futuro da Cia, porque dá muito tempo para conversar; a casa está sempre cheia; os funcionários das unidades do SESI têm uma excelente disposição para nos atender; a peça vai ficando cada vez mais azeitada porque a estamos apresentando regularmente.

Sexta-feira nós chegamos em Sertãozinho esperando o pior. O SESI fez um convênio com a prefeitura da cidade e a gente tinha uma apresentação agendada no Teatro Municipal de lá. Confesso com pesar que não tenho tido boas experiências com teatros públicos desde que comecei a fazer teatro em Osasco e por isso, quando temos apresentações nestes lugares eu sempre costumo fazer uma reserva de energia para "brigar" com os funcionários públicos na hora de pedir a eles que façam o seu trabalho.

O Léo me liga na quarta-feira falando que o funcionário do Teatro não estava sabendo da nossa apresentação e que o mapa de luz não tinha chegado até aquela hora. Portanto, era bem possível que a gente nem tivesse divulgação da apresentação. Além disso, a prefeitura havia marcado um evento no teatro para falar do programa de Casa Própria do governo e a coisa só acabaria às 17hs. Tínhamos três horas para montar tudo... Zica!

É uma merda a gente tratar essas coisas como sorte, ou exceção, mas o fato é que os funcionários do teatro foram extremamente profissionais e eficientes. Conseguimos montar nosso cenário enquanto o prefeito fazia o seu discurso e também montamos todas as luzes do palco antes que a cortina se abrisse. Às 17:30hs só faltava subir as barras de cor, montar os refletores da frente do palco e afinar as luzes todas. Excelente!

A cada apresentação vamos ficando mais rápidos nos processos de montagem/desmontagem do cenário, mas o apoio do pessoal do teatro na hora da montagem facilita muitíssimo a nossa vida e a montagem de Sertãozinho foi muito ajudada pelos funcionários do teatro. Valeu caras!

O fato é que no sábado a gente já acordou em Rio Claro e então combinamos uma reunião de produção para depois do café da manhã. Cada um colocou idéias e ficamos com algumas lições de casa para o próximo final de semana. No domingo, lemos a peça nova do Léo, "Rua do Medo" que é duca!

As duas apresentações de Rio Claro foram lotadas! No domingo tivemos quase 100 pessoas a mais na casa (que tem por volta de 200 lugares).

terça-feira, 21 de abril de 2009

Acabamos de voltar de Franca, onde escrevemos mais um capítulo da nossa história dentro do Projeto Viagem Teatral do SESI. A apresentação de "O Rei dos Urubus" foi, sem falsa modéstia, um tremendo dum desbunde, com todos os atores conectados numa sintonia filha da puta, que nada mais é do que o reflexo dessa nossa convivência de tantos anos, construída através da convicção de que o teatro é a coisa que a gente mais gosta de fazer na vida. O público respondeu à altura, numa ovação fudida, e se isso é mérito da qualidade da nossa peça, é impossível não reconhecer que o Viagem Teatral se revela um sucesso dentro daquilo que é a maior necessidade da cultura nacional: a formação de um público cada vez maior, consciênte e àvido pelo objeto artístico. Lá se vão dez anos de um projeto que subvenciona espetáculos que se apresentam gartuitamente nos sempre bem equipados teatros do SESI do interior. Além disso, cada unidade do SESI tem um Núcleo de Artes Cênicas que promove a prática teatral em cursos e montagens ao longo do ano. O resultado é que, invariavelmente, temos a platéia lotada por espectadores atentos e familiarizados com a linguagem, que agradecidos, se beneficiam por uma política cultural que deveria ser copiada e estudada por qualquer instituição que responda pela cultura no âmbito do governo. Enfim, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a Cia dos Gansos se sente honrada por participar de algo que coloca a arte no seu lugar de direito dentro de uma sociedade decente.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O RESUMO DE UMA CONVERSA POR E-MAIL COM O GUI, QUE EU ACHO QUE ESCLARECE ALGUMAS COISAS:

De cara, eu digo que a Cia dos Gansos é um grupo que se propõe a fazer teatro calcado no prazer da criação e da comunhão artística. Obviamente isso não significa repetição de fórmulas ou preguiça na hora de botar a mão na massa ou encarar um desafio. Acredito honestamente que cada montagem do nosso grupo representou um degrau a mais no nosso crescimento artístico em função dos desafios lançados à nós mesmos, que acredito, foram vencidos de forma exemplar em cada uma das peças. Em “Mumu, A Vaca Metafísica”, de 2000, pesquisamos e incorporamos no espetáculo artifícios que tornaram um texto datado numa montagem criativa e vibrante. Em “Crápula Redimido”, de 2003, cortamos o cordão umbilical que nos unia à universidade, conseguindo montar um espetáculo com os nossos próprios e parcos recursos materiais e artísticos . O “Crápula” refletiu com muita honestidade o momento artístico dos integrantes da Cia dos Gansos e por isso reconheço que foi uma montagem um tanto imatura, mas fundamentalmente honesta e coerente com o discurso e as idéias defendidas no texto. Em “In Memorian”, de 2004, o desafio foi estar só em cena. Não gosto tanto desse meu texto e acredito que a direção do Fred deixou tudo muito mais palatável, o que muito agradeço a ele. Com “Escombros”, atingimos um nível bem bacana no que diz respeito aos aspectos artísticos e criativos: nos propusemos a realizar um trabalho de ator com a Juliana Jardim e com o Fred Foroni que resultou em muito elogio pra todos nós, modestamente falando. Acho que a partir desse texto, minha dramaturgia evoluiu à beça, bem como a afinação do discurso entre os integrantes da Cia dos Gansos. Agora temos em cena "O Rei dos Urubus", que na minha opinião sedimenta a proposta da nossa companhia: o esforço de realizar um teatro popular, que cutuque as feridas abertas da nossa sociedade, num pretexto à reflexão e à comunhão efetiva com a platéia.
A Cia dos Gansos montou ao longo desses anos, textos ligados à realidade social brasileira, que versam sobre as aflições do homem contemporâneo, tendo o humor como ferramenta de aproximação do público. A Cia dos Gansos está momentaneamente a serviço da minha dramaturgia, mas podemos montar qualquer outro autor desde que ele venha ao encontro das nossas inquietações como artistas. A Cia dos Gansos é um grupo de atores. O trabalho do ator sempre será o foco principal quando estivermos num processo de montagem. Por isso, as encenações da Cia se caracterizam pela simplicidade estética e pelo vigor na interpretação. A comunhão, o jogo e o olho no olho são buscas perpétuas durante ensaios e temporadas. Com "O Rei dos Urubus" inauguramos uma nova sistemática de trabalho que espero que possa ser a característica dos nossos trabalhos futuros: a incorporação de um diretor de fora, com novas visões e experiências que alargam o nosso pensamento e a nossa possibilidade de desenvolvimento artistico.
Sempre que proponho algo para o grupo procuro ter em mente as respostas para as duas questões fundamentais que devem orientar a nossa caminhada em comum: Por que faço teatro e por que faço essa peça. Em relação à primeira pergunta, já versei anteriormente sobre tudo o que me atrai no teatro: a perspectiva da comunhão e do crescimento artístico, o discurso consciente, a convicção de que o que estamos falando é importante pra quem ta assistindo e etc. Acho que "O Rei dos Urubus" atinge todos esses objetivos. Trata-se de uma tragicomédia que versa sobre a miséria espiritual que padece boa parte da humanidade. Que versa sobre a miséria de quem explora a miséria alheia e nem por isso deixa de ser miserável. Temos em cena personagens cujas personalidades foram esmagadas por imposições do sistema e que se apóiam em mesquinhos jogos de poder na tentativa desesperada de auto-afirmação. A Denise Stoklos falou, em outras palavras, sobre a função do ator dentro de um espetáculo teatral: a suprema generosidade de sofrer pelo espectador as dores que ele não precisará sofrer quando sair do teatro, porque ele irá se afastar ou enfrentar essas dores quando se reconhecer na cena. Acho que "O Rei dos Urubus" cumpre essa função. Acredito piamente na importância e pertinência da sua mensagem nos dias de hoje e finalmente, acho que é um trabalho que se revela um ótimo pretexto pra que os integrantes da Cia dêem muita risada enquanto trabalham.
Alias, isso sempre acontece, diga-se de passagem.